Pedro Casáldaliga: um legado de honra

Bispo emérito receberá homenagem no sábado, em Goiânia

A morte de dom Pedro Casaldáliga, no último sábado, 8 de agosto, comoveu pessoas em todo o mundo. Dono de um legado único de dedicação às populações mais pobres e de luta contra a desigualdade, o religioso espanhol morreu aos 92 anos após mais de 50 anos vivendo no Brasil, especificamente, em São Félix do Araguaia, no Mato Grosso.

Bispo emérito de São Félix, dom Pedro teve um papel importante para a Teologia da Libertação e trabalhou em favor dos indígenas e dos sem terra, na região marcada por conflitos agrários. Escolheu ser enterrado em um cemitério indígena, nas margens do Rio Araguaia, em uma cerimônia marcada pela simplicidade e pela gratidão da comunidade local, na última quarta-feira, 12 de agosto.

Doutor Honoris Causa pela PUC Goiás, dom Pedro foi relembrado com admiração pela comunidade acadêmica. Este foi apenas um dos títulos recebidos pelo religioso, que foi reconhecido por várias universidades e instituições. Nascido na Catalunha, veio para o Brasil com 40 anos e se tornou bispo da região de São Félix em 1971, cargo que exerceu até 2005.

Neste sábado, 15 de agosto, ele receberá nova homenagem em missa a ser celebrada na Igreja São Judas Tadeu, em Goiânia, às 19 horas, e transmitida no Facebook nos perfis @conselhosdeleitos e @fradesdominicanos, no canal @laicatodobrasil do Youtube e no instagram da paróquia, @saojudasgyn.

A cerimônia está sendo organizada pela Comissão Dominicana de Justiça e Paz do Brasil.  “Agora que os pobres mais precisam, é esse sinal que devemos seguir, tocha em punho, caminhando longe e decididos, para onde o próprio Pedro nos levou. Pobres de Pedro, estamos mais ricos de coragem”, escreveu o frei José Fernandes, coordenador da entidade. É dele a organização da missa para Pedro.

Para o reitor Wolmir Amado, a memória de dom Pedro será um luzeiro para a instituição. “No lugar central de nossa Instituição, na galeria destes homenageados, guardamos com muito carinho e honra o nome e a fotografia de dom Pedro, para perpétua memória. Sua biografia e suas causas deverão ser sempre lembradas, incorporadas ao nosso projeto educativo e inseridas em nosso jeito de fazer e ensinar a ciência. Aquele que semeou e viveu a justiça e solidariedade, não morrerá jamais”, disse Wolmir, sobre o bispo.

Amiga pessoal de Pedro, a professora Marlene Ossami, do Instituto Goianos de Pré-História e Antropologia, lamentou a partida do religioso e relembrou a sua biografia pautada radicalmente pelo Evangelho de Jesus, sempre comprometido com as causas dos oprimidos. “Pedro Casaldáliga, o “profeta dos pobres” e “amigo de Deus”, foi um bispo que defendeu e assumiu com determinação as bandeiras de muitas lutas a favor da vida em plenitude, a exemplo de Jesus. Frente aos desafios do mundo, Pedro assumiu compromisso com diferentes causas a partir dos valores evangélicos: a luta das minorias étnicas e raciais, a luta das mulheres, dos lavradores e dos sem-terra, a luta dos oprimidos da África e da América Latina”.

Biografia

Na década de 1970, dom Pedro ajudou a fundar o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e a Comissão Pastoral da Terra junto com o também bispo dom Tomás Balduíno e outras lideranças. As duas entidades têm uma atuação relevante em defesa dos indígenas e dos trabalhadores rurais e sem terra. Também foi um importante organizador e incentivador das Comunidades Eclesiais de Base (CEB), que se espalharam na América Latina inspiradas na Teologia da Libertação e fortaleceram a igreja para o povo. Por causa da sua atuação em defesa dos direitos humanos, em uma região marcada pela violência e pelo conflito, dom Pedro sofreu vários processos para ser deportado durante a ditadura militar. “Pedro, seus gritos clamando por justiça continuarão a nos impulsionar a sermos cristãos e cidadãos na Igreja de Jesus e em nosso País, que sofre com retrocessos políticos e sociais, violação dos direitos humanos e com o desmantelamento de programas sociais e educacionais”, afirmou a professora Marlene Ossami. Dom Pedro foi o 15º a receber o título de doutor honoris causa da PUC Goiás, em uma cerimônia realizada em setembro de 2012. O nome de dom Pedro foi indicado por um colegiado de professores dos cursos de Filosofia e Teologia da PUC Goiás. Para Alberto Moreira, professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da universidade, Pedro foi um dos maiores profetas e místicos do Brasil. “Sempre foi um profeta incômodo, um cristão que entendeu, viveu e propagou radicalmente o cristianismo e o caminho de Jesus”, lembra ele que conviveu com o o bispo no norte de Goiás. O pacifismo militante e corajoso do religioso foi um dos motivos para o colegiado, do qual Alberto fez parte,  indicar o nome de Pedro para ser um dos 23 doutores da PUC. “Ele foi uma estrela e uma luz, não só para a igreja do Brasil, do Centro-Oeste, para todos que seguem o cristianismo”.

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